Resposta direta: a curva glicêmica na gestação, também chamada de teste oral de tolerância à glicose (TOTG), mostra como o organismo responde a uma solução com 75 g de glicose. No protocolo de uma etapa usado no Brasil, são feitas coletas em jejum, uma hora e duas horas após a ingestão. O exame costuma ser solicitado entre a 24ª e a 28ª semana quando a gestante ainda não recebeu diagnóstico de diabetes na gravidez.
O resultado não deve ser interpretado como uma “nota” isolada. O momento da coleta, o preparo, o protocolo utilizado e os limites próprios da gestação fazem diferença. Segundo a Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), no TOTG de 75 g entre 24 e 28 semanas, um único valor que atinja o ponto de corte já pode estabelecer o diagnóstico de diabetes mellitus gestacional. A confirmação e a conduta pertencem à equipe do pré-natal.
O que é a curva glicêmica ou TOTG?
O TOTG avalia a glicose no sangue antes e depois de uma quantidade padronizada de glicose por via oral. O nome “curva” vem da comparação dos resultados em momentos diferentes. Na investigação de diabetes gestacional pelo método de uma etapa, a carga é de 75 g e as três dosagens são feitas em jejum, após uma hora e após duas horas.
Esse exame responde a uma pergunta diferente daquela feita por uma única glicemia em jejum. A primeira coleta mostra o ponto de partida; as demais mostram a resposta do organismo à sobrecarga. Por isso, uma medida não substitui automaticamente a outra.
Curva glicêmica e teste de tolerância à glicose são a mesma coisa?
Na linguagem cotidiana, os nomes geralmente se referem ao mesmo processo. Também podem aparecer as siglas TOTG ou TTGO e, em materiais em inglês, OGTT. Entretanto, existem protocolos com quantidades de glicose e tempos de coleta diferentes. Na gestação, é importante conferir se o pedido é para o TOTG de 75 g com coletas em jejum, uma hora e duas horas.
Por que a gestação tem critérios próprios?
As mudanças hormonais da gravidez podem aumentar a resistência à insulina, especialmente à medida que a gestação avança. Além disso, os pontos de corte do diabetes gestacional foram definidos considerando a associação entre glicose materna e desfechos da gestação. Por esse motivo, não é seguro comparar o laudo de uma gestante com a tabela usada fora da gravidez.
Também não é correto concluir que um resultado alterado aconteceu porque a gestante “comeu errado” ou falhou no cuidado. Diabetes gestacional tem múltiplos fatores e requer acompanhamento sem culpa.
Quando a curva glicêmica é feita na gestação?
A SBD e a linha de cuidado do Ministério da Saúde indicam o TOTG de 75 g entre a 24ª e a 28ª semana para gestantes cuja glicemia inicial não estabeleceu previamente o diagnóstico. A avaliação da glicose começa no pré-natal inicial; portanto, o calendário não deve ser decidido apenas pela pessoa com base no que leu na internet.
O exame pode ser solicitado antes de 24 semanas?
A equipe pode investigar hiperglicemia no início da gravidez, sobretudo para identificar diabetes que já existia ou alterações presentes precocemente. A estratégia depende do histórico, dos exames iniciais e do protocolo do serviço. As diretrizes destacam que a interpretação da hiperglicemia antes do período habitual de 24 a 28 semanas tem particularidades; isso não deve ser convertido em um diagnóstico por conta própria.
E se a gestante chegou ao pré-natal depois de 28 semanas?
O atraso não significa que não exista mais nada a fazer. A equipe deve avaliar a idade gestacional, os exames já realizados e o protocolo disponível para definir a investigação adequada. Não tente reproduzir o teste em casa com açúcar, bebidas ou medições de glicosímetro: o exame diagnóstico usa solução padronizada e glicemia plasmática em laboratório.
Para entender por que sintomas não substituem rastreamento, leia diabetes gestacional dá sintomas?.
Como se preparar para o TOTG de 75 g?
A preparação correta ajuda a tornar o resultado comparável. A diretriz brasileira orienta que o teste seja precedido por três dias sem restrição de carboidratos, com ingestão de pelo menos 150 g de carboidratos por dia, e por jejum de oito horas. Isso não significa aumentar doces nem montar uma dieta sozinho; significa evitar reduzir carboidratos deliberadamente para tentar “melhorar” o exame.
Além dessa orientação geral, siga exatamente as instruções escritas do laboratório e do pré-natal. Serviços podem definir horário de chegada, medicamentos que precisam ser informados, condições para reagendamento e o que é permitido durante a espera. Não suspenda insulina ou qualquer outro medicamento por conta própria.
Pode beber água durante o jejum?
As regras práticas podem variar entre serviços. Confirme diretamente com o laboratório se água é permitida e em qual quantidade. Evite assumir que café sem açúcar, chá, goma de mascar, cigarro ou exercício são equivalentes a permanecer em jejum: eles podem interferir no preparo ou contrariar o protocolo.
É necessário levar alguma coisa?
Leve documento, pedido médico, exames anteriores solicitados e os itens indicados pelo laboratório. Como o procedimento ocupa mais de duas horas quando se considera cadastro, coleta inicial e intervalos, programe o deslocamento e a permanência. Se houver histórico de náusea intensa, vômitos, desmaio em coleta ou cirurgia bariátrica, avise a equipe antes do teste.
Como é feita a curva glicêmica na gestação?
- O laboratório confirma o preparo e faz a coleta de sangue em jejum.
- A gestante ingere a solução padronizada com 75 g de glicose no tempo orientado pela equipe.
- Permanece no local seguindo as regras do serviço, sem comer e sem fazer atividade física.
- É realizada nova coleta uma hora após a sobrecarga.
- A terceira coleta ocorre duas horas após a ingestão.
Os horários precisam ser respeitados porque cada resultado corresponde a um ponto específico da resposta à glicose. Sair para caminhar, comer, fumar ou ingerir outra bebida durante o intervalo pode comprometer a interpretação. Se o laboratório der uma orientação diferente, peça que explique qual protocolo consta no pedido.
O que acontece se houver náusea ou vômito?
A solução é muito doce e algumas pessoas sentem náusea. Avise imediatamente a equipe; não esconda o episódio e não tente completar a carga novamente sem orientação. Vômito pode invalidar o teste, e o serviço decidirá se ele deve ser interrompido ou remarcado. Tontura, mal-estar importante ou qualquer sintoma intenso também devem ser comunicados no momento.
O exame é perigoso para o bebê?
O TOTG é um exame padronizado usado no pré-natal. A solução é administrada para observar a resposta do organismo por um período curto. Dúvidas particulares — como cirurgia bariátrica, intolerância importante ao teste ou uma condição clínica específica — precisam ser discutidas com o obstetra e o laboratório, pois podem exigir outra estratégia de avaliação.
Quais valores são avaliados no TOTG da gestação?
Para o método de uma etapa com 75 g entre a 24ª e a 28ª semana, a SBD adota os seguintes pontos de corte para diabetes mellitus gestacional:
- Jejum: glicemia igual ou maior que 92 mg/dL e menor que 126 mg/dL;
- 1 hora: glicemia igual ou maior que 180 mg/dL;
- 2 horas: glicemia igual ou maior que 153 mg/dL e menor que 200 mg/dL.
Nesse protocolo, um único valor que atinja ou ultrapasse o respectivo ponto de corte é suficiente para o diagnóstico de diabetes gestacional. Já uma glicemia de jejum igual ou maior que 126 mg/dL ou uma glicemia de duas horas igual ou maior que 200 mg/dL pode indicar diabetes diagnosticado na gestação, uma classificação diferente que exige avaliação médica.
Esses números não são metas de acompanhamento e não devem ser comparados diretamente com medições feitas em glicosímetro depois das refeições. O artigo sobre valores da diabetes gestacional separa pontos de corte para diagnóstico de metas usadas depois que o acompanhamento já começou.
Um resultado abaixo do limite exclui qualquer risco?
O laudo deve ser lido como conjunto e dentro do pré-natal. Resultados abaixo dos pontos de corte não dispensam as demais avaliações da gestação, e valores próximos ao limite não devem gerar automedicação, dieta radical ou repetição caseira. O profissional considera o protocolo, o momento da gravidez e a qualidade da coleta.
O laboratório pode mostrar uma tabela diferente?
Pode haver tabelas destinadas a pessoas não gestantes ou protocolos de duas etapas usados em outros contextos. A ADA, por exemplo, descreve tanto a estratégia de uma etapa com 75 g quanto uma estratégia de duas etapas com triagem de 50 g e teste de 100 g. No Brasil, a referência apresentada pela SBD para o TOTG de 75 g na gestação usa os três pontos de coleta descritos acima. Leve qualquer divergência à equipe em vez de escolher sozinho a tabela que parece mais favorável.
TOTG, glicemia de jejum e hemoglobina glicada são iguais?
Não. A glicemia de jejum mede a concentração de glicose naquele momento após o período sem alimentação. A hemoglobina glicada reflete uma média aproximada da exposição à glicose ao longo das semanas anteriores, mas sofre influências próprias e não substitui automaticamente o TOTG no rastreamento entre 24 e 28 semanas. O TOTG observa a resposta após uma carga padronizada.
Cada exame responde a uma pergunta clínica. Por isso, o fato de a glicemia em jejum estar abaixo de 92 mg/dL no início da gravidez não torna desnecessário, por si só, o teste posterior que foi solicitado.
Se quiser compreender os exames fora do contexto específico da gravidez, veja qual exame detecta diabetes e quando confirmar o resultado.
O que fazer depois de receber o laudo?
Envie ou leve o resultado ao profissional responsável pelo pré-natal, mesmo que todos os valores pareçam dentro da referência. Se houver alteração, o próximo passo não é cortar grupos alimentares nem começar medicamento sozinho. A equipe pode orientar acompanhamento da glicose, alimentação compatível com a gestação, atividade física quando liberada e tratamento medicamentoso se necessário.
Diabetes gestacional pode exigir pré-natal com vigilância adicional, mas isso não significa que toda gestante terá complicações. Entenda como a classificação de gravidez de alto risco é usada e por que o acompanhamento busca reduzir riscos.
Se surgirem dor de cabeça intensa, alterações visuais, falta de ar, dor forte na parte superior do abdome, sangramento, redução percebida dos movimentos do bebê ou outro sinal de urgência orientado pela maternidade, procure avaliação sem esperar a próxima consulta. Para a relação entre pressão e glicose, leia diabetes gestacional e pré-eclâmpsia.
Vídeo complementar do EDU Diabetes
No vídeo abaixo, Edu Rodrigues responde dúvidas sobre controle da glicose e comenta a interpretação da curva glicêmica a partir de 9:09. O episódio é mais amplo do que o TOTG na gravidez e não substitui o protocolo do pré-natal; ele foi mantido como complemento por já pertencer a esta página.
Perguntas frequentes
Quantas horas de jejum são necessárias para a curva glicêmica?
A Diretriz da SBD orienta jejum de oito horas para o TOTG de 75 g usado no diagnóstico de diabetes gestacional. Confirme o horário e as demais regras com o laboratório.
Com quantas semanas é feito o TOTG?
Em geral, entre a 24ª e a 28ª semana quando não houve diagnóstico anterior na gestação. A equipe pode definir outra investigação conforme os exames iniciais e o histórico.
Quantas coletas são feitas?
No protocolo de 75 g em uma etapa, são três: em jejum, uma hora e duas horas após a solução. Outros protocolos podem ter etapas diferentes.
Um valor alterado já indica diabetes gestacional?
No protocolo brasileiro de 75 g descrito pela SBD, sim: um valor que atinja o ponto de corte correspondente pode estabelecer o diagnóstico. A classificação final deve ser feita pela equipe do pré-natal.
Posso fazer dieta antes do exame para a glicose baixar?
Não tente manipular o resultado. A orientação é manter alimentação sem restrição de carboidratos nos três dias anteriores. Siga o pedido médico e as instruções do laboratório.
Glicosímetro substitui a curva glicêmica?
Não para o diagnóstico pelo protocolo descrito. O TOTG usa carga padronizada, horários definidos e glicemia plasmática em laboratório.
Vomitei a solução. O exame ainda vale?
Avise a equipe imediatamente. O vômito pode invalidar o procedimento; somente o serviço pode decidir se haverá interrupção ou reagendamento.
Resumo prático
- O TOTG de 75 g avalia a glicose em jejum, uma hora e duas horas após a solução.
- Na gestação, costuma ser realizado entre 24 e 28 semanas quando não houve diagnóstico anterior.
- A SBD orienta três dias sem restrição de carboidratos e jejum de oito horas.
- Um único resultado no ponto de corte pode estabelecer diabetes gestacional nesse protocolo.
- Não compare o laudo com metas do glicosímetro ou tabelas para pessoas não gestantes.
- Não suspenda medicamentos, faça dieta radical ou repita o teste por conta própria.
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Fontes consultadas
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Rastreamento e diagnóstico da hiperglicemia na gestação — Diretriz 2026.
- Ministério da Saúde. Linha de cuidado do pré-natal de baixo risco.
- Organização Mundial da Saúde. Avaliação de alterações relacionadas à nutrição durante a gestação.
- American Diabetes Association. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes—2026.
Atualizado em: 4 de setembro de 2026. Autoria: Edu Rodrigues. Revisão editorial: EDU Diabetes, com base em diretrizes e documentos oficiais vigentes na data da atualização.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica, nutricional, prescrição ou tratamento individualizado. Não altere medicamentos por conta própria.


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