Os pés merecem atenção especial em quem tem diabetes porque duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo: a neuropatia diabética reduz a sensibilidade, e a circulação sanguínea pode ficar mais fraca. Na prática, isso significa que um pequeno corte, bolha ou calo pode passar despercebido e demorar mais para cicatrizar. A boa notícia é que uma rotina simples de cuidado diário reduz bastante esse risco.
Inspeção diária: o hábito mais importante
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a inspeção diária dos pés deve ser estimulada porque esse exame identifica precocemente lesões e alterações que passariam despercebidas por causa da neuropatia. Reserve um minuto, todo dia, de preferência sempre no mesmo horário, para olhar os pés com atenção.
- Olhe o dorso do pé, a sola e, principalmente, o espaço entre os dedos.
- Se tiver dificuldade para ver a sola, use um espelho no chão ou peça ajuda a alguém de confiança.
- Procure cortes, bolhas, calos, rachaduras, unhas encravadas e áreas ressecadas.
- Preste atenção a mudanças de cor, inchaço ou temperatura diferente entre os dois pés.
- Se notar qualquer ferimento, mesmo pequeno, anote e observe se cicatriza em poucos dias; se não cicatrizar, siga para a seção de sinais de alerta abaixo.
Como lavar, secar e hidratar os pés
Lave os pés diariamente. Como a neuropatia pode reduzir a sensibilidade ao calor, a SBD orienta verificar a temperatura da água antes de colocar os pés, testando-a com a mão ou o cotovelo, e evitar escalda-pés e água muito quente, que podem causar queimadura sem que você perceba na hora.
Depois de lavar, seque bem, especialmente entre os dedos — a umidade que fica ali favorece frieiras e infecções. Em seguida, hidrate a pele do pé para evitar rachaduras, mas evite passar creme entre os dedos, já que o excesso de umidade nessa área é o que você quer evitar.
Como cortar as unhas com segurança
Corte as unhas dos pés em linha reta, sem arredondar os cantos. Segundo a SBD, o corte arredondado favorece o encravamento nos cantos dos dedos. Depois de cortar, lixe delicadamente as pontas para não deixar quinas afiadas.
Se você tem dificuldade para enxergar bem, alcançar os pés ou já teve unha encravada antes, ou se a unha estiver grossa demais para cortar com segurança, peça a um podólogo ou profissional de saúde para fazer esse cuidado por você, em vez de arriscar um corte que vire ferida.
Calçados e meias: o que ajuda a proteger
Segundo a SBD, um calçado adequado para quem tem diabetes tem a parte da frente larga (para não apertar os dedos), sem costuras internas que possam machucar, colarinho (a parte de trás, perto do tornozelo) acolchoado, solado firme e não muito flexível, e é feito de um material macio que deixe o pé respirar, como couro macio.
- Antes de calçar, passe a mão por dentro do sapato para checar se não há pedrinhas, costuras ásperas ou outros objetos pequenos.
- Prefira meias claras — assim fica mais fácil perceber sangue ou secreção cedo, caso haja um ferimento — sem elástico apertado, e troque-as todos os dias.
- Experimente sapatos novos aos poucos, por curtos períodos no início, para notar qualquer ponto de atrito antes que vire uma lesão maior.
O que evitar
- Andar descalço, inclusive dentro de casa — a SBD aponta esse hábito como fator de risco para lesões nos pés.
- Usar bolsa de água quente, escalda-pés ou qualquer fonte de calor direto nos pés.
- Cortar calos ou calosidades você mesmo com lâmina, estilete ou similares, ou usar produtos químicos para remover calos sem orientação — esses cuidados são mais seguros nas mãos de um profissional.
- Meias ou sapatos apertados, incluindo elásticos que marcam a perna.
Sinais de alerta: quando procurar atendimento sem esperar
Procure atendimento médico assim que perceber qualquer um destes sinais, sem esperar para ver se melhora sozinho:
- Ferida que não fecha ou que piora em vez de cicatrizar.
- Vermelhidão, calor local ou inchaço em qualquer parte do pé.
- Mudança na cor do pé ou dos dedos, ou diferença de temperatura entre os dois pés.
- Dor nas pernas ao caminhar, ou dor, formigamento ou dormência que piora.
- Febre associada a qualquer alteração no pé, ou glicose fora do controle sem explicação — pode ser sinal de infecção.
Acompanhamento profissional: com que frequência
Além do cuidado diário em casa, a diretriz da SBD sobre prevenção de úlceras no pé diabético (edição 2026) recomenda que o exame dos pés na consulta seja feito com uma frequência que depende do seu nível de risco. Essa classificação é feita pelo médico, com base em uma combinação de fatores — perda de sensibilidade protetora (testada, por exemplo, com um filamento especial), problemas de circulação nos pés, deformidades no pé e histórico de ferida ou amputação anterior — e não é algo que se calcula sozinho em casa. De forma geral, quanto mais fatores de risco o médico identificar, mais frequente tende a ser a reavaliação, dentro da faixa que a própria diretriz estabelece.
| Nível de risco (classificado pelo médico) | Frequência de exame profissional dos pés (diretriz SBD) |
|---|---|
| Risco muito baixo — sem perda de sensibilidade, sem doença arterial periférica e sem histórico de úlcera ou amputação | Ao menos 1 vez por ano |
| Risco aumentado — um ou mais desses fatores já identificados pelo médico (incluindo deformidade no pé) | De 1 a 12 meses, mais frequente quanto maior o risco — o médico define exatamente onde você está nessa faixa |
Essa classificação de risco cabe ao médico, não a uma autoavaliação — leve essa tabela como roteiro para perguntar, na sua próxima consulta, qual é o seu nível de risco e com que frequência seus pés devem ser examinados. Se você notou sintomas como formigamento, dormência ou queimação nos pés e quer entender melhor o que isso pode indicar, veja também o artigo sobre como saber se você tem neuropatia diabética.
Fontes
Este artigo é educativo e não substitui a avaliação do seu médico ou de um podólogo sobre o cuidado dos seus pés, especialmente se você já tem alguma alteração de sensibilidade, circulação ou ferida.
- Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Cuidados com os pés: o que o enfermeiro deve orientar e a pessoa com diabetes precisa saber?
- Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Diretriz — Diagnóstico e prevenção de úlceras no pé diabético, edição 2026.




Pingback: Diabetes causa coceira? Relações e sinais de alerta
Pingback: Creme para pé diabético: como escolher e aplicar